A.I. – Inteligência Artificial: Fabricando amores verdadeiros
A mistura de Kubrick e Spielberg que resultou na minha paixão pelo cinema.
Por Thiago Melo - 29 de Julho de 2012
Todo mundo tem um ponto inicial com o cinema, aquele filme que abriu seus olhos e te mostrou um mundo completamente novo, do qual você sabia da existência, mas não tinha a mínima noção da dimensão. A magia da sétima arte vai muito além dos efeitos de Hollywood, consiste em você se sentir incluso naquele ambiente, se sentir próximo daqueles personagens, e, principalmente, a magia do cinema consiste no efeito inesperado que um determinado filme causa em você.
Eu já chorei com Toy Story, já vibrei com a saga Harry Potter, já ri com Chaplin e já passei horas pensando e discutindo o surrealismo Lynchiano, mas tudo isso pra mim começou em 2001, com “A.I – Inteligência Artificial”, meio que por engano. Não é assim que boas estórias começam? Na época eu estava na sexta série, tinha 12 anos, e estava afim de uma menina da escola e resolvi convidá-la ao cinema para ver “Como Cães e Gatos”. Numa dessas conversas em grupo, aquele convite para um “primeiro encontro” se tornou um encontro de amigos nas férias porque alguém se intrometeu na conversa e se autoconvidou e assim eu me via numa reunião com mais ou menos 10 pessoas. No dia marcado chovia muito, e a maioria dessas 10 pessoas não apareceu, inclusive a garota. Esperamos mais um pouco e… perdemos a sessão de “Como cães…”
Hoje eu agradeço pelo temporal, como não íamos perder a viagem, eu e o resto do pessoal que havia aparecido, decidimos ver a próxima sessão disponível. Sim, “A.I.”, lembro que não sabia nada da história e que tinha absoluta certeza de que iria odiar. Ledo engano, ao final do filme eu sequer lembrava que havia levado um bolo. Durante pouco mais de duas horas eu fui transportado para aquele mundo futurista cuja razão de ser era motivado pelo amor fabricado.
Em um futuro em que os recursos naturais estão escassos devido ao aquecimento global, o controle de natalidade se torna algo mais que comum, é aí que surgem os Mechas, inicialmente apenas como auxiliares da vida moderna, até conhecermos David (Haley Joel Osment), um robô em forma de criança que é programado para demonstrar amor incondicional à sua família humana. A primeira grande pergunta surge no diálogo inicial: “Um pessoa (ou Orga) estaria pronto para amar um mecha, da mesma forma que este foi programado?”, o que remete a uma velha questão moral, enfatizada pelo criador dos mechas: “Deus não criou Adão para que ele O amasse?”
Acredito que todos que conhecem o filme devem saber que o projeto não era inicialmente de Spielberg, mas sim de Stanley Kubrick ainda na década de 80, após o diretor de “O Iluminado” ler o conto “Superbrinquedos Duram o Verão Todo“, do inglês Brian Aldiss. O cineasta chegou a rabiscar esboços e até a testar robôs (sem conseguir sucesso) para uma possível adaptação, porém, após assistir a Parque dos Dinossauros, Kubrick viu em Steven Spilberg a pessoa certa capaz de conduzir o projeto, devido a sua familiaridade com efeitos especiais. Spilberg chegou a mexer no projeto, mas o devolveu a Kubrick dizendo que ele quem deveria dirigi-lo. Kubrick, então, planejou a pré-produção para começar após a finalização de De olhos Bem Fechados. O diretor faleceu no dia em que os executivos recebiam a cópia original do filme. Assim, Spilberg assumiu novamente o projeto e foi o resultado da mistura desses grandes diretores que me surpreendeu.
Não à toa, “Inteligência Artificial” guarda alguns resquícios de Kubrick, principalmente os aspectos misantrópicos do filme, como o festival de horror da Feira dos Corpos, ou até a relação de David com seu “irmão-humano” Martin, que resulta no consequente abandono do robô pela mãe, a qual ele ama incondicionalmente. Ao mesmo tempo, as características de Spielberg estão escancaradas em cada cena sentimental, como o terceiro ato quase que inteiro. A “combinação” destes dois diretores foi mais que pontual, afinal a frieza e o sentimentalismo é exatamente a força motriz do filme: o amor artificial.
Boa parte dessa combinação é conseguida através da incrível atuação de Haley Joel Osment, que, acredito eu, em sua melhor forma, embora ele ainda seja mais lembrado pelo filme do Shyamalan. A conexão que o ator cria entre a realidade e a artificialidade é tão peculiar, que é impossível não se identificar com David. Basta reparar na cena em que Monica o programa para amá-la, e como a feição do garoto muda de maneira sutil a ponto de você passar a considerar aquele amor programado como amor real.
E de fato aquele amor é real, pelo menos mais real que muita história familiar do cinema. Um amor que beira à devoção, somado à inocência de David, que ao acreditar num conto de fadas, segue em uma aventura que lhe leva, literalmente, ao fim do mundo. Isso tudo pra conseguir o amor de sua mãe. E aí me vem uma outra pergunta: importa a natureza do amor? Penso que não. Por tudo aquilo que David fez, por tudo aquilo que ele passou, e por tudo aquilo que ele sentiu, David, no fim, é o mais humano de todos aqueles personagens.
Aliás, Spielberg deixou isso bem claro nos minutos finais, que pra mim representa o único tropeço do filme. Desde o começo a busca de David pela fada azul estava fadada ao fracasso, e caso o filme terminasse na cena em que o menino implora para uma estátua lhe transformar em humano teríamos um daqueles grandes filmes com grandes finais (e pra mim esse é o verdadeiro final de A.I.). Seria uma mistura de melancolia e inocência, tão bem pontuada pela trilha sonora de John Williams. Mas o que vemos é uma solução, que embora sirva para dar um final feliz àquele conto de fada em particular, peca pelo caminho escolhido. Aqueles seres que ressuscitam a mãe de David surgem como algo fora do contexto de todo o filme, como se num passe de mágica a solução para todos os problemas tivesse sido encontrada.
Embora o “segundo” final tire um pouco o brilhantismo do filme, isso não o diminui. O essencial está todo diluído durante o longa. Em um certo momento, o personagem-robô de Jude Law que acompanha David nessa busca lhe diz em tom de desabafo: “Eles nos fizeram espertos demais, àgeis demais e em número excessivo. Nós estamos sofrendo pelo erros deles, porque quando o fim chegar, tudo que restará somos nós.” David passa um bom tempo falando que é único e especial, e ao descobrir que não passava do primeiro de uma série de robôs idênticos, pela primeira vez toda aquela situação abala o garoto e como num grito de desespero, se joga ao mar. E o contraste do filme mais uma vez é exposto: não era único, não era ágil, nem esperto o suficiente para encontrar a verdadeira fada azul, mas era humano justamente por isso.


