Deus da Carnificina | Crítica
Polanski volta a filmar dentro de um apartamento em drama ácido de elenco.
Por Victor Barreto - 10 de Junho de 2012
Ao assistir Deus da Carnificina (Carnage), o novo de Roman Polanski, é difícil não lembrar do emblemático “Quem tem Medo de Virgínia Woolf?“, filme que colocava dois casais em um desgastante confronto verbal, aflorando com a ajuda do álcool todo tipo de amargura relacionada à instituição do casamento. Mas aqui, o motivo do encontro entre os quatro combatentes é um episódio de agressão entre seus filhos, e as questões levantadas se aproximam muito mais ao satírico Um Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, que escancara a hipocrisia de toda uma classe submetendo-a a uma situação surreal de aprisionamento.
Na primeira vez que os conhecemos, digitando um relato do acontecido para a escola, já há uma pequena demonstração da diferença de perspectiva que, claro, irá durar o filme inteiro. Enquanto Penélope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly) alegam que o agressor de seu filho estava “armado” com um bastão, Alan e Nancy (Christoph Waltz e Kate Winslet) subitamente corrigem para “portando” um bastão. As primeiras cenas são as melhores do filme, porque ambos os casais ainda estão no âmbito da cordialidade e falsa-sensatez, um prato cheio para os quatro atores demonstrarem seu talento em representar ironia e sarcasmo. É nesse estágio de Deus da Carnificina que a maioria das pessoas vai se identificar com a situação, habilmente descrita pela roteirista (e autora da famosa peça que deu origem ao filme) Yasmina Reza.
Alegando que o melhor modo de resolver a situação é através do diálogo amigável, a anfitriã Penélope aproveita a visita do outro casal para descobrir se o filho deles está arrependido de seu ato. Com isso cria-se uma crescente tensão, e uma estranha força parece impedir Nancy e Alan de irem embora para evitar o iminente conflito. O tal Deus do título, talvez? Nesta altura, o espectador deve sofrer leves pontadas de angústia, devidamente maquinadas pelo diretor. A cena chega a um ponto onde Waltz e Winslet, dentro do elevador, resolvem voltar ao apartamento.
É importante salientar que o filme adquire um status autoral ao considerarmos que tudo se passa dentro de um apartamento, com a exceção das cenas inicial e final. Polanski sabe como ninguém aproveitar isso (vide sua trilogia composta de Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary e O Inquilino), e embora o alicerce de Deus da Carnificina seja seu talentoso elenco, o diretor dá uma bela ênfase visual à tensão através de movimentos de câmera arrojados e uma edição sarcástica. Em seus filmes antigos, Polanski utilizou um “expressionismo às avessas”, aterrorizando suas personagens dentro de locais fechados e sufocantes num eterno comentário sobre a deterioração da sociedade. Aqui, sem fugir muito disto, ele expõe toda a mesquinhez e materialismo mascarados de apreço à arte e cultura, profissionalismo, casamento e família, mas com uma boa dose de humor.
Com uma deliciosa e surpreendente duração de apenas 80 minutos, Deus da Carnificina serve também como uma competição paralela entre quatro grandes atores da atualidade. É inegável que Jodie Foster chame grande atenção pelas cenas em que nem mesmo sua voz acompanha sua histeria, porém é justo salientar que os demais entregam belas atuações, em especial Christoph Waltz que não precisa abrir a boca para expressar sarcasmo.
Ironicamente, no ápice do escândalo torna-se divertido assistir ao filme, é um sentimento como o hábito mórbido de acompanhar barracos na TV. Assim, a resposta de Alan para Penélope em um certto momento ganha novas perspectivas: “Moralmente, você deve controlar seus impulsos, mas tem hora que você não quer controlá-los.”
Assista ao trailer de Deus da Carnificina
Filme genial do Polanski. Muito embora a OP definitiva sobre o tema "pessoas-presas-em-um-ambiente-por-força-estranha" seja mesmo O Anjo Exterminador, as atuações são escandalosamente sensacionais, a condução magistral e há muito a se refletir. Eu, ao contrário do Vick não consigo realmente identificar o melhor momento da estória, tudo é muito bom o tempo todo e há algumas horas que você rola de rir. Mais um filmaço de um ano atípico (2011) repleto de filmes memoráveis.
Eu até gosto, especialmente pelas atuações femininas, mas com moderação.
Fantástico filme e fantástico sua postagem que soube tão bem traduzir o sentimento do telespectador ao assistir ao filme e a análise psicológica dos atores.