E aí, Comeu? | Crítica
Papo descontraído e piadas machistas não sustentam o filme.
Por Renato Rocha - 22 de Junho de 2012
Logo de início, na primeira cena de E aí, Comeu?, determinado personagem olha diretamente para a câmera enquanto está urinando. Olho no olho com o espectador, o sujeito declara que as mulheres devem se estapear e se matar para conseguir um homem. “Espólio de guerra” é o termo específico que ele usa para definir como o homem é o troféu a ser alcançado.
A cena em questão se passa em uma conversa em um banheiro de um bar, que culmina com uma inevitável comparação entre dotações. Tudo para ilustrar bem o rumo que o filme vai tomar, e a partir disso, E aí, Comeu? segue em um festival de chauvinismo e piadas sexistas onde as mulheres mais radicais vão virar a cara.
Não que seja condenável. Na verdade, o clima politicamente incorreto, onde os amigos abraçam o vocabulário chulo faz parte dos melhores momentos do filme. Mas sozinho não se sustenta, porque nada disso se reverte em aprendizado para os personagens.
A promessa era de que E aí, Comeu? mostraria tudo o que os homens conversam quando se reúnem em uma mesa de bar. E a trama começa nesse intuito (adaptada da peça homônima de Marcelo Rubens Paiva, que também roteirizou o filme) ao nos apresentar três amigos, que, entre uma cervejinha e outra reclamam de suas frustrações e trocam ideias sobre, basicamente, mulheres. A mulher de Fernando (Bruno Mazzeo) o deixou, a de Honório (Marcos Palmeira) não para em casa e Afonsinho (Emílio Orciolo Neto) não tem mulher, é solteiro, curte umas surubas, mas quer compromisso sério.
Na verdade, enquanto estão enchendo a cara e fazendo observações sobre a anatomia feminina, sobre o hair design das partes pubianas, ou dando dicas sobre sexo oral, o filme adota um estilo politicamente incorreto e um ar que o diferenciaria das demais produções do gênero.
Mas aí o diretor Felipe Joffily (de Muita Calma Nessa Hora) parece se preocupar em querer dar lição de moral e fazer os personagens “pagarem” pelo seu machismo. O casado sofre com a desconfiança de que é corno, o solteiro sofre de solidão e quer namorar uma prostituta, e o recém divorciado sofre por satisfazer seus impulsos sexuais, que são reprováveis aos olhos da sociedade. Todos são penalizados na mesma medida e ao mesmo tempo, para logo depois o “castigo” ganhar ares de prêmio. Com isso os personagens parecem não sair do lugar. O que era descolado antes ganha ares apenas de casca e deixa de ser o cerne. Começa a soar artificial.
Ao fim de E aí, Comeu? fica a sensação de que presenciamos todos os três estágios da bebedeira no próprio filme, sem que os personagens evoluíssem de alguma forma. Acompanhamos o início eufórico, quando os amigos falam bobagem sem parar, o estágio intermediário, onde os personagens passam por dúvidas sobre seus sentimentos e se tornam voluntariosos (segue a esposa, combinam de agredir um sujeito) e o estágio final, onde os personagens se entregam à situação (seja no amor novo ou antigo e na aceitação daquilo que se faz). E quando a luz acende resta ao espectador a pior parte da bebedeira, a ressaca.
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