O Corvo | Crítica

Toda a construção do tom do filme é desperdiçada por uma história anticlimática.

Por Renato Rocha - 23 de Maio de 2012

O Corvo-posterDisse o corvo: Nunca mais.” A frase famosa dos versos do poema de Edgar Allan Poe é a que o personagem usa dentro de um bar para comprovar a sua fama de escritor talentoso reconhecido pelo público, e tentar assim conseguir uns bons drinks por conta da casa. Tudo porque Allan Poe está falido.

É assim que o celebrado escritor do século 19, interpretado aqui por John Cusack, é apresentado no início de O Corvo (The Raven). Ainda que reconhecido, Allan Poe vive uma crise financeira e a única forma de tentar pagar suas dívidas é emplacar umas críticas literárias em um jornal de Baltimore.

Por esse cenário O Corvo ensejaria um filme de drama, mas a história usa justamente o tom dos contos policiais de Edgar Allan Poe, famoso por escrever histórias policiais soturnas, para colocar o próprio escritor como um personagem de seus livros. Quando alguns assassinatos macabros começam a acontecer na cidade, Fields (Luke Evans), o detetive do caso, logo identifica que os crimes são baseados nas histórias do escritor, o que faz com que ele entre em cena para ajudar a descobrir a identidade do assassino, principalmente quando sua futura esposa, a donzela Emily (Alice Eve) se vê em perigo.

O roteiro de Ben Livingston e Hannah Shakespeare parece se aproveitar um pouco da premissa de Instinto Selvagem (escritor envolvido com crimes baseados em suas histórias), embora o autor aqui não apareça como um possível suspeito, e até se esforça para homenagear o escritor inserindo diversos de seus versos durante o filme. No entanto, fica meio óbvio que a intenção é mesmo a de colocar uma figura histórica em ação.

Aí entra o mérito do diretor James McTeigue (V de Vingança). Seria muito fácil sucumbir à tentação de transformar o escritor em uma espécie de novo Sherlock Holmes de Guy Ritchie, o que não acontece. Ok, ambos os personagens são arrogantes, mas o escritor não parece ter o menor talento para o manuseio de armas, ou mesmo para lutas corpo a corpo, e seu poder de dedução soa mais como uma consequência de um sutil narcisismo (ele é um profundo adorador de sua própria obra), do que propriamente uma inteligência superior capaz de resolver enigmas complicadíssimos. McTeigue também acerta no tom do filme, investindo mais no suspense em torno da identidade do assassino e em algumas cenas de violência. O Corvo parece realmente ter saído de um conto do escritor.

Uma pena que toda a climatização sirva de palco para uma história tão sem criatividade. O Corvo pode até manter o espectador curioso até final, mas desperdiça os seus personagens e se afunda de vez com uma resolução totalmente anticlimática. Nem precisa ser um profundo conhecedor de Edgar Allan Poe para saber que ele merecia mais.

Cotação 2-5

Assista ao trailer de O Corvo

 

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