Shame | Crítica

Na primeira cena, antes mesmo do título aparecer, fica claro que Shame será um filme sem grandes inibições quanto ao [...]

Por Victor Barreto - 20 de Março de 2012

Shame - posterNa primeira cena, antes mesmo do título aparecer, fica claro que Shame será um filme sem grandes inibições quanto ao sexo. É em torno dele que toda a história se desenvolve, e aqui não haveria sentido algum tratá-lo de maneira púdica. Em poucos segundos é possível dizer que Brandon, personagem de Michael Fassbender, é viciado em sexo. Ele logo aparece nu, e não “como veio ao mundo” – a hipocrisia com a nudez masculina, no cinema, é irritante, e é muito bom ver qualquer projeto escapando disto. O fato de Fassbender ser um astro em plena ascensão, e com um membro maior que o de Denholm Elliott em Uma Janela para o Amor também causam um certo choque.

Em Shame, Brandon é um homem atraente, bem sucedido, de hábitos saudáveis e dono de um apartamento em Nova York. No entanto não tem um carro, porque o metrô se tornou um local frutífero para encontrar sua próxima parceira. Na verdade, em qualquer lugar existe a possibilidade de uma relação, e para ele não há problema algum em investir nas oportunidades que cruzam seu caminho. Como viciado, ele precisa disto.

Embora a premissa de Shame dê a sensação do filme ser um próvavel softcore, a fotografia encarrega-se de mostrar tudo sob uma luz fria, clínica, enfatizando muito mais a patologia por trás da luxúria. E Brandon, apesar de muitos compartilharem de sua sede, jamais é visto como alguém são – os olhos de Fassbender em especial não ocultam um passado de dor. Isso não vem a tona por inteiro, mas é aflorado com a chegada de Sissy (Carey Mulligan), sua irmã recém-chegada de Los Angeles. Ela não está em um bom momento, e pede abrigo ao irmão, tornando-se rapidamente um fardo. Mas Sissy é, ao menos aparentemente, bem mais lívida que o irmão, e injeta na história uma boa dose de calor.

Em certo momento de Shame, Mulligan canta “New York, New York“. A reação dos dois à música revela uma vida extremamente melancólica, além da desilusão de estrangeiros vivendo numa grande cidade. A convivência torna-se insuportável para Brandon quando a única coisa mais valiosa que o sexo, sua privacidade, é abalada. O laço familiar revela-se praticamente inexistente quando ele não consegue mais realizar seus “rituais terapêuticos” em paz. A parte disso, descobrimos ainda sua incapacidade em engatar um potencial relacionamento duradouro, sendo sabotado (fisicamente, diga-se) pelo próprio vício. A vergonha o leva a abstinência, e logo ao desespero. Na cena mais antológica do longa, Brandon chega ao clímax com horror estampado em seu rosto, e é visível como este paradoxo dilacera sua alma.

Tendo em Fassbender seu principal alicerce, Shame peca na trilha sonora intrusiva (que rouba do espectador muitas interpretações) e no final desnecessariamente ambíguo. Sem ter apresentado qualquer solução para o dilema, seria contraditório acreditar na redenção de seu vício.

Cotação 4-5

 

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Uma resposta a “Shame | Crítica”

  1. Cicaralves diz:

    Tal o final contradito seja justamente pela impossibilidade de um final “Redentor”!

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