Superman – O Filme: De delírio de Ícaro à canção de Gilberto Gil
Sobre como em 1978 o mundo acreditou que o homem podia voar.
Por Renato Rocha - 25 de Julho de 2012
Voar, um dos grandes sonhos do homem. Talvez alimentado pela inveja dos pássaros, não se sabe. Não à toa as asas estão comumente ligadas à ideia de liberdade, já que é a gravidade a última vilã a ser enfrentada.
Se a liberdade humana é limitada, o cinema, por outro lado, não possui limitações que não possam ser superadas e mesmo quando as encontra, faz de tudo para transpô-las, justamente para dar ao homem, também, o prazer que ele não pode encontrar.
Coube então ao diretor Richard Donner a tarefa de fazer a humanidade acreditar naquilo que muitos já haviam tentado sem sucesso: acreditar que o homem pudesse voar, pelo menos no cinema. E, em 1978, o mundo conheceu Superman – O Filme.
E conheceu também Christopher Reeve. Sua personificação do herói é tão determinante para o sucesso de Superman – O Filme quanto é icônica. Não só sua imagem ficou associada ao Superman, como Superman teve sua imagem associada a ele. Desfilar com collant colorido e dizer frases feitas sem soar ridículo é o resultado de sua enorme seriedade e dedicação ao personagem.
Seriedade talvez seja a palavra que melhor serve para o tom que Richard Donner e sua equipe deram a Superman – O Filme. Embora tudo esteja no campo do fantástico, são as palavras proféticas de Marlon Brando que pontuam como a narrativa será tratada. “Isso não é fantasia. Não é produto de uma imaginação fértil”, diz Jor-El logo em sua primeira cena.
Superman é um personagem saído dos gibis, que surge em cena de capa e collant nas cores da bandeira americana e luta por “verdade, justiça e american way.” Ingredientes perfeitos para que o filme não fosse levado a sério. Mas não foi o que aconteceu. Talvez levado por um sentimento de resgate, o público norte americano se encantou com um herói que representava uma época de inocência e que estava chegando ao fim com Guerra Fria e Watergate.
Se hoje as cores da bandeira no uniforme incomodam os mais radicais, que enxergam ali resquícios do imperialismo norte americano, o mérito de Donner se torna maior ainda ao longo do tempo. O diretor não só conseguiu colocar isso em segundo plano como tornou a causa do herói globalizada. Não se trata só de prender o bandido e receber um agradecimento do presidente no final, se trata de solidão, da relação entre pais e filhos, de amores impossíveis e sacrifício. É a capacidade do filme de encantar o espectador que faz com que qualquer outro conceito fique diminuído.
Superman é o último de sua raça, mas não quer se sentir sozinho, é invulnerável, mas se machuca como qualquer um, é extraordinariamente rápido, mas não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, ama, mas não pode concretizar seu amor. No fundo, apesar de alien, seus conflitos são tão humanos quanto os de qualquer um.
O filme serve ainda como uma imensa declaração de amor às mulheres. Lois Lane representa a figura feminina, a mulher independente conquistando seu espaço no mundo novo. Apesar dela se derreter pelo herói, é ele quem está aos seus pés. É por ela que ele subverte as leis. “Quem sabe o Super-Homem venha nos restituir a glória, mudando como um Deus o curso da história, por causa da mulher?” Gilberto Gil escreveu os inspirados versos depois de assistir ao filme e resume em poesia o desfecho da história.
Superman – O Filme não só recria de forma brilhante a história do maior super herói do mundo, como finca os pilares dos filmes do gênero. Proporciona ao espectador muito mais do que entretenimento escapista. Faz viajar para longe, faz reacender o desejo antigo de liberdade e ganhar os céus, faz acreditar e inspira canções.
Dê um curtir gostosinho na fanpage do Cinelogin no Facebook.


