Terra dos Sonhos – A incansável busca pela felicidade
Um filme que não tinha a menor pretensão de ser grande, mas foi justamente o que acabou sendo. Uma grande obra-prima.
Por Luiz Soares - 30 de Julho de 2012
A maioria dos filmes que nos marcam são aqueles que assistimos durante a infância. Por nosso conhecimento cinematográfico e experiência de vida serem praticamente nulos, qualquer coisa que assistimos nos impressiona. É por isso que, por exemplo, o filme mais traumático da minha vida é Pânico 2, que assisti pela primeira vez na Tela Quente, aos 8 anos. Durante minha infância, minha mãe me enchia de medo sobre os perigos de se morar no Rio de Janeiro e a visão de um cara invadindo casas e esfaqueando pessoas me levou a ter pesadelos por semanas. Atualmente, eu ainda amo o filme (e a franquia), mas por razões diferentes, lógico.
Uma ou outra vez na vida, porém, podemos encontrar outro filme que nos marca profundamente quando já adquirimos mais conhecimento e é por isso que resolvi escrever sobre ele. Pois se é relativamente fácil encantar um pirralho de 8 anos, um semi-pirralho de 17 já é um pouco mais difícil. No meu caso, um destes filmes é Terra dos Sonhos, um filme que acima de tudo, te faz amar cada um daquelas pessoas que você acompanha.
O mais notável de Terra dos Sonhos é que já vimos todas essas situações em vários outros filmes, mas a mão sensível de Sheridan torna tudo aquilo novo aos nossos olhos. Ele constrói delicadamente a dinâmica daquela família, que fazem de tudo para esquecer o fantasma da morte do filho, mas sem sucesso. A dor deles não é exagerada, eles realmente a guardam para si na esperança que o tempo a torne menos presente, embora os obstáculos da vida impeçam que sintam felicidade. Assim, os pais são obrigados a fingir que as coisas irão melhorar para que as filhas possam ter esperança, mesmo que o futuro deles seja tão incerto quanto o de qualquer um de nós.
Sheridan é um notável diretor de mirins (quem já assistiu a Meu Pé Esquerdo e Entre Irmãos deve concordar) e aqui arranca duas atuações fenomenais das irmãs Emma e Sarah Bolger. É impressionante o equilíbrio alcançado pelas duas, que ao mesmo tempo em que não encarnam o estereótipo da criança precoce, tampouco são as criancinhas motivos de piadinha que vários filmes criam, sendo sempre tratadas com seriedade, mas nem por isso deixando de encantar graças ao seu olhar infantil. Quando a mais velha se sai espetacularmente bem em cenas mais desafiadoras (como a emocionante explosão de Christy, que sob sua doce ótica infantil, acredita “ter carregado a família durante todo aquele tempo”), fica claro que Sheridan realmente criou um ambiente bastante confortável para que suas atrizes brilhassem sem qualquer timidez.
Mas por incrível que pareça, os adultos estão ainda mais arrebatadores que as crianças. Nunca havia reparado em Paddy Considine em O Ultimato Bourne ou Hot Fuzz, mas depois de sua atuação aqui, automaticamente me tornei fã do ator. Ele compreende perfeitamente toda a força que Johnny usa para controlar suas emoções, mesmo quando as coisas só parecem ir de mal a pior para a sua família, ainda que deixe transparecer em alguns momentos toda a decepção e amargura que sente com a morte do filho. Quando as situações se tornam tão desesperadoras que ele simplesmente não consegue mais prender suas emoções, elas saem dele com força total, rendendo mais um momento espetacular quando ele desabafa com Matteo. Mas nada é mais poderoso do que o momento em que finalmente derrama suas lágrimas, um momento que o filme prepara desde o início e entrega muito além das expectativas. Ali, toda a ligação que tínhamos com o personagem é posta à prova e, no meu caso, rendeu um oceano de lágrimas, numa conclusão perfeita do arco do personagem.
Se a atuação devastadora de Considine foi uma surpresa, para mim, a de Samantha Morton já foi previsível, sendo uma atriz que eu sempre apreciei em outros filmes. Sarah é provavelmente a mais traumatizada dos dois com a morte do filho, embora sofra silenciosamente para o bem das filhas. Quando ela resolve arriscar sua vida e continuar com a gestação, percebemos que mais do que fazer isso pelas filhas, ela mesma não conseguiria suportar a perda de mais um filho. Morton brilha tanto em seus momentos de silêncio quanto nos explosivos, alcançando o seu auge no momento em que finge que a criança está chutando sua barriga apenas para que as crianças não se preocupassem com ela.
Terra dos Sonhos não foi feito com a pretensão de ser grande, mas foi o filme que acabou tornando-se. Uma grande obra-prima.


