1984 – O Clássico de George Orwell

O lançamento recente de Jogos Vorazes trouxe à tona novamente toda a temática que envolve a mais famosa obra de George Orwell. Romance [...]

Por Felipe Dias - 3 de Abril de 2012

1984 George-OrwellO lançamento recente de Jogos Vorazes trouxe à tona novamente toda a temática que envolve a mais famosa obra de George Orwell. Romance distópico clássico, tendo sido duas vezes adaptado para o cinema, 1984 pinta um  retrato angustiante de um possível futuro da humanidade. A história mostra uma sociedade completamente dominada por um regime político totalitário, onde a vida das pessoas é completamente vigiada pelo Partido, personificado pela figura do Grande Irmão. A privacidade é inexistente. Qualquer deslize pode ser fatal. Não importa onde esteja, “O Grande Irmão está observando você”.

George Orwell

George Orwell era o pseudônimo do escritor e jornalista inglês Eric Arthur Blair. Tendo vivido durante a primeira metade do século XX, se tornou um grande ativista político da época. Definindo sua posição como socialista democrático e possível simpatizante da ideia anarquista, criticou duramente o chamado “socialismo real” praticado pela União Soviética em outro romance famoso: A Revolução dos Bichos (Animal Farm no original), de 1945.  Tendo uma intensa oposição à qualquer forma de totalitarismo, Orwell realizou em 1984 a sua obra máxima dois anos antes de morrer, em 1950, vítima de tuberculose.

A estrutura de 1984 não se preocupa em ser muito elaborada, adotando o clássico formato de três atos  narrativos marcados de forma clara por viradas na trama. Ao mesmo tempo sua escrita é feita de maneira simples e direta, sem muitos rodeios nem descrições exageradas. Isto torna o livro fácil de ser lido, com um ritmo que se mantém constante durante toda a trama. O foco aqui é o conteúdo da mensagem, e não a forma com a qual ela é apresentada.

Grande Irmão 1984

A trama é protagonizada por Winston Smith, um membro do Partido que mora em Londres. Em determinado momento, sem nem entender muito bem o porquê, Winston se rebela. Logo de início somos apresentados ao personagem num estado de necessidade desesperador, quase animalesco, de ter que exprimir sua insatisfação de alguma forma. Mas sua vida é vigiada o tempo inteiro por pessoas prontas para denunciá-lo e por Teletelas, uma mistura de TV com câmera que monitora tudo que está ao seu redor ao mesmo tempo em que transmite sem cessar informações do Partido. O menor vacilo pode lhe custar a vida. Essa situação do personagem ter que sempre esconder o que sente e o que pensa para nunca ser pego gera uma tensão angustiante durante toda a história, e Orwell trabalha isso de maneira sublime. O autor deixa claro desde o início que não há escapatória, Winston está condenado desde o momento em que teve o primeiro pensamento rebelde. Mas mesmo assim o leitor se prende ao personagem e o clima angustiante o engole completamente.

1984 winston e juliaNo segundo ato da história, Winston conhece uma moça chamada Julia, que secretamente também dividia sua repulsa pelo Partido e pelo Grande Irmão. Os dois começam um romance. É interessante notar que Julia não compartilha das preocupações políticas de seu amado. Sua visão de mundo é muito mais pragmática, ela apenas anseia por ser dona da própria vida, poder fazer o que quiser. De certa forma, ela é o personagem mais forte que o livro apresenta, já que sua personalidade comporta um dos mais primitivos desejos da alma humana, antes de qualquer ideologia política possível,  o anseio pela liberdade puro e simples. A medida que o romance entre os personagens se desenvolve, o leitor é levado pela ternura e experimenta por um breve momento um alívio na tensão e uma ponta de esperança para os dois.

1984 dedosSentimento que é logo impiedosamente destruído pelo cruel terceiro ato da história. A perturbadora sequência de tortura que se segue até o fim não deixa o leitor parar para respirar. Ao final, a exemplo do próprio Winston, seus nervos estão em frangalhos. A força da lavagem cerebral com a qual o personagem é submetido é tamanha que ele chega ao ponto de realmente ver o que o Partido, representado pela figura ambígua de O’Brien, lhe sugere. Não é o bastante concordar que dois e dois são cinco, se ele assim diz. É necessário ver de fato. E ao forçar a condição de dor ao extremo, a ponto de perder completamente a sanidade, Winston é transformado em algo inerte, inumano. Ele é anulado enquanto indivíduo.

1984 war is peaceEsta é a principal crítica de Orwell ao totalitarismo, não importa sob que estandarte ele se transvista. O Estado de 1984 reduz o indivíduo a nada. Ele lhe tira a capacidade de raciocinar por si próprio, já que o aliena através de sua filosofia de Duplipensamento. Ele lhe tira a memória, já que o tempo todo os registros do passado são alterados de acordo com a conveniência de quem está no poder e as pessoas são convencidas de que sempre foi assim (“Quem controla o passado, controla o futuro. E quem controla o presente controla o passado”). Em última instância, este Estado tira do indivíduo até mesmo a sua forma de se expressar, já que idealiza um novo idioma, batizado de Novafala, cujo vocabulário é convenientemente reduzido.

E Orwell vai além em sua crítica. Naquele que é o melhor momento da narrativa, o autor discorre através de um artifício “livro dentro do livro” todo um discurso sobre a sistemática na transação de poder dentro da sociedade através dos tempos. E qualquer um que tenha estudado história na vida reconhece a precisão daquele padrão que é, antes de tudo, uma denúncia irrefutável da mesquinharia e do egoísmo humano.

Porém, maior que todo viés político, o que fica depois de ler 1984 é mesmo uma forte e profunda melancolia. Poucas vezes na minha vida li uma conclusão tão triste e desoladora como é o final deste livro. A sensação é que o leitor foi atropelado por um caminhão. Isto, é claro, só significa o quão maravilhoso é este clássico e o quão importante é a lição que ele contém. Que a humanidade jamais se esqueça dela.

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